EDUCAÇÃO

Como foi o primeiro dia de aulas da Educação Infantil no RS após quase seis meses



No primeiro dia de retomada das aulas presenciais na Educação Infantil, segundo o cronograma proposto pelo governo do Estado, pelo menos nove cidades se encontravam dentro das condições estabelecidas para voltar às aulas. A adesão, no entanto, foi baixa mesmo dentro desses municípios.

Caxias do Sul foi a que apresentou maior movimento: 40 instituições – de um total de 150 – tiveram plano de contingência apresentado ao município aprovado e puderam retomar as atividades. No início da manhã desta terça-feira (8), os pequenos já marcaram presença, mas com diversas regras a serem seguidas.

Na Xodó da Vovó, no bairro Cinquentenário, por exemplo, a partir de agora, os pais precisam largar o filho no primeiro portão: um professor, então, coloca a criança em um aparelho de desinfecção dos pés por luz ultravioleta. Pais não são permitidos dentro das escolas. E as instituições podem receber apenas 50% da capacidade. 

Na Pequeno Girassol, também em Caxias, segundo o plano de contingência apresentado pela escola, só podem retornar as crianças cujos pais participaram de reunião anterior. Caso a criança apresente algum sinal de febre ou mal-estar, ela fica em uma salinha especial, sob observação de um adulto. Os pais ou responsáveis são contatados para vir buscá-la e encaminhá-la para atendimento.

Baixa adesão

Mesmo com autorização para que as aulas presenciais da Educação Infantil voltem em regiões que estejam em bandeira amarela ou há pelo menos duas semanas em bandeira laranja, a maior parte dos municípios das 21 regiões de saúde definidas pelo governo do Estado não autorizou a reabertura das escolas.

Entre aquelas que poderiam permitir que as crianças voltem a frequentar aulas já nesta semana estão Caxias do Sul, Bento Gonçalves, Garibaldi, Carlos Barbosa, Canela, São Marcos e Flores da Cunha, Bagé e Lajeado. O governo do Estado ressalta que não há obrigatoriedade para o retorno, que será facultativo, a depender da decisão dos municípios, das escolas e dos pais.

A decisão de permitir a volta às aulas presenciais é polêmica. Mesmo entre profissionais da saúde, os pontos de vista são diferentes. Mas há uma unanimidade: os cuidados terão de ser redobrados. As instituições terão de seguir uma série de protocolos sanitários, com o objetivo de evitar a contaminação. A Secretaria Estadual da Saúde recomenda o uso de máscaras em tempo integral para crianças com mais de dois anos, além da higienização constante das mãos e do distanciamento social.

Em entrevista à Rádio Gaúcha, o secretário estadual da Educação, Faisal Karam, reforçou que a decisão sobre a retomada será compartilhada. Além de os prefeitos poderem vetar o retorno, mesmo com autorização do Estado, os pais terão autonomia para enviar ou não os filhos às escolas.

— Ninguém está obrigando ninguém a voltar. O que foi se fazendo foi compartilhar autonomia com gestores, dando a eles o direito de decidir se sua rede volta. É uma decisão compartilhada. Da mesma forma que eu, como cidadão, vou no mercado e compartilho espaço com outras pessoas, por uma decisão minha, os pais têm o momento de ter a sua decisão. Em decorrência da vulnerabilidade, da fragilidade do ensino remoto, pais que não conseguem fazer a criança ter interesse. São diversos fatores que nos fizeram dar autonomia aos gestores e às famílias para que entendam em qual momento seu filho deve voltar — disse.

Para as escolas da rede estadual, o retorno só está permitido a partir de 13 de outubro. O motivo é a contratação, ainda em andamento, de equipamentos de proteção individual (EPIs) e materiais de higiene — o processo custa R$ 45 milhões e está em fase final. Segundo Karam, só poderão retomar atividades presenciais os colégios que tiverem todos os protocolos atendidos, e as equipes de direção das escolas terão autonomia para decidir:

— Quem vai validar são os centros de operações de emergência (COEs) municipais, professores e servidores, que vão dizer se, naquele checklist de cuidados, todos foram atendidos ou não. A escola também vai ter de decidir se os protocolos são atendidos, se os materiais estão postos, se há servidores. Não é garantia de retomada. É um primeiro passo que o governo está dando.

Entre os itens obrigatórios estão tapetes de higienização, termômetros para medição de temperatura e álcool gel. Se um aluno tiver febre, ficará isolado e será encaminhado para casa; se for identificado um número maior de estudantes, a escola será novamente isolada.

Onde mais houve retomada

No município de São Marcos, um dos primeiros da Serra a acolher a flexibilização estadual referente às aulas presenciais em escolas particulares de educação infantil, 60 crianças devem voltar às atividades nas três escolas da cidade entre a tarde desta terça e a manhã de quarta-feira (9). Em Bento Gonçalves, os estudos foram retomados de forma presencial em 18 escolas de Educação Infantil.

Em Garibaldi e Carlos Barbosa, a volta às aulas presenciais não foi de sala cheia nas poucas escolas de Educação Infantil que decidiram reabrir na rede particular. Os municípios somam um total de 15 instituições, mas a reportagem conseguiu contatar três em funcionamento nesta manhã.

Já em Flores da Cunha, segundo a prefeitura, das 10 escolas que atendem no município, apenas uma vai retomar as atividades nesta semana: a Brincando e Construindo, que pretende reabrir nesta quarta. As outras nove escolas da cidade se programam para reabrir na próxima segunda-feira (14).

Fora da Serra, em Bagé, na Campanha, a adesão das instituições de ensino foi baixa. Das 20 escolas que estão aptas a voltar, apenas duas planejam a retomada, efetivamente.

A prefeitura de Lajeado decidiu postergar para a partir de 15 de setembro a volta das atividades presenciais da Educação Infantil nas escolas privadas do município. Na rede pública, a previsão é de retomar as escolinhas em 1º de outubro, exclusivamente para crianças de quatro e cinco anos. Conforme o prefeito Marcelo Caumo, a rede pública vai levar duas semanas a mais para retomar atividades, uma vez que precisa de mais tempo para se adaptar às exigências.

— A rede particular consegue dar uma resposta mais rápida, tanto para adaptações que o Estado encaminha quanto para qualquer resposta que a pandemia vai oferecer. Como eles já estão mais preparados do que o poder público, autorizamos. E a gente faz também o acompanhamento e tem elementos a mais para saber o que está dando certo e o que não está. O poder público naturalmente precisa de um tempo a mais para botar o projeto a rodar – apontou Caumo.

Associações não recomendam retorno

Em reunião realizada na manhã desta terça, a ampla maioria das entidades regionais que compõem a Federação das Associações de Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs) optou por não recomendar a retomada das aulas presenciais para as redes pública e privada. Ao todo, foram 24 votos a favor dessa decisão e três contrários. Maneco Hassen, presidente da Famurs, afirma que essa é apenas uma orientação:

— A nossa recomendação é que não volte nenhum setor de ensino, mas vamos respeitar a autonomia de cada município e de cada prefeito sobre sua cidade.  

O parecer final apenas reforça o posicionamento da instituição, que já havia manifestado, no começo do mês, ser contrária ao retorno dos encontros presenciais. Para Hassen, o plano do Piratini não levou em consideração o estágio da pandemia no Estado, na comparação com outras regiões brasileiras e países, e não planejou um programa efetivo de testagem da população na tentativa de mapear a curva de transmissão. O presidente da Famurs disse ainda que falta estrutura aos municípios:

— Não há uma estrutura mínima para garantir que os protocolos sanitários sejam cumpridos.

Aumento do contágio por coronavírus "é esperado"

Em entrevista ao programa Gaúcha Hoje, da rádio Gaúcha Serra, o prefeito de Caxias do Sul, Flávio Cassina, disse que o risco trazido pela reabertura não é muito diferente do que vem ocorrendo nos bairros:

— (Nos bairros), o pessoal parece que está em outro mundo, completamente diferente do nosso. Acho que a situação não vai se modificar muito porque é uma adesão voluntária, há pais que acham que devem levar os filhos às escolinhas, outros acham que não devem. É uma experiência que vamos fazer. Alguns dizem "ah, é uma experiência que pode custar caro", sim, pode. Mas não tão mais caro do que vem ocorrendo. Basta a gente dar uma volta nos parques e nas praças para ver o que está acontecendo — salientou o prefeito.

Cassina lembrou que há protocolos que devem ser seguidos à risca pelas escolinhas. Além das medidas de segurança, o prefeito reforçou que Caxias do Sul está na bandeira laranja no modelo de distanciamento controlado do Estado desde 4 de agosto.

— É uma oportunidade que temos de constatar se estamos errados ou se temos de corrigir alguma coisa. Ao meu ver, como leigo, o pior problema é a Educação Fundamental — comentou.

Para o secretário municipal da Saúde em Caxias do Sul, Jorge Olavo Hanh Castro, a volta às aulas presenciais na rede particular de Educação Infantil na cidade deve fazer com que ocorra o aumento do contágio pelo coronavírus. Para tentar conter o vírus, a prefeitura estabeleceu uma série de regras e exigiu planos de contingência das instituições. No entanto, mesmo assim, haverá a maior circulação de pessoas e, consequentemente, um crescimento de casos, segundo Castro:

— Sempre quando se tem um aumento da movimentação, e isso não se restringe só à criança e à escola, tem o fator de o pai levar e aguardar a saída, então aumenta a movimentação social e vai aumentar o contágio não só nas crianças, mas também nos adultos. Isso é o que se espera. O que se está fazendo é tomar as medidas para que esse aumento do contágio seja o mínimo possível e que se tenha uma segurança para as crianças que estão dentro das escolinhas.

Para Leite, retorno da educação é essencial

Para o governador Eduardo Leite, a educação não deve ser tratada como questão "supérflua", mas sim como serviço essencial, ainda que em meio à pandemia. Leite se mostrou aberto à discussão e reiterou ter ciência de que o tema é complexo. Portanto, admite que a questão não gerará consenso entre as partes envolvidas.

— Não tem consenso sobre isso. É difícil ter consenso de qualquer parte sobre a questão da educação. Mas o primeiro ponto é: não dá pra gente pensar que educação seja supérfluo e não essencial. Aliás, tem muitos especialistas que dizem: "se tiver que parar, para comércio, mas não pare a educação". Educação é essencial para o desenvolvimento do futuro, do nosso Estado, da nossa região. Então não dá pra gente pensar que a gente vai parar a educação e que o ano que vem a gente vai encontrar as mesmas crianças e jovens — explicou.

Em entrevista ao Gaúcha Atualidade nesta terça-feira (8), na Rádio Gaúcha, a presidente do  Cpers-Sindicato, Helenir Aguiar Schürer, afirmou que o momento não é o ideal para o retorno às aulas presenciais no Estado. Para ela, a falta de estrutura e de equipamentos para a prevenção da contaminação pelo coronavírus são as principais justificativas.

— Este não é o momento, temos certeza disso. Me preocupa quando o governo diz que é uma decisão dos pais. Quando não tem garantia de contaminação, é fácil passar essa responsabilidade. As crianças serão as cobaias do governo — afirmou.

Helenir também salientou a necessidade de uma curva de contágio com diminuição mais significante do que a registrada atualmente. Ela acredita que a retomada das atividades somente poderia ser considerada se a curva se estagnasse durante um período de 30 dias e se todas as escolas recebessem estrutura e recursos como equipamentos de proteção para a prevenção.

Aulas devem voltar "em breve" no Brasil

Sem entrar em detalhes, o ministro da Educação, Milton Ribeiro, afirmou que as aulas nas escolas devem retornar "em breve". A decisão, contudo, depende também dos governos estaduais, lembrou Ribeiro. Nesta terça-feira, ele e outros ministros responderam a perguntas da youtuber mirim Esther Castilho.

— As aulas devem voltar em breve, assim que tiver segurança — disse.

Um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgado nesta terça-feira indicou que a suspensão das atividades escolares deve causar impactos na economia mundial que podem durar até o final do século e pode levar a uma perda ao longo deste período de, na média, 1,5% na economia global.

Ainda de acordo com a OCDE, as escolas brasileiras ficaram fechadas por mais tempo do que a média dos outros países estudados e isso vai impactar a aprendizagem e a habilidades dos alunos.

Cronograma

Pelo decreto, as datas para as atividades serem retomadas são as seguintes:

Educação Infantil, a partir de 8 de setembro
Ensino Médio, Técnico e Superior, a partir de 21 de setembro. Na rede estadual, a partir de 13 de outubro
Ensino Fundamental/anos finais, a partir de 28 de outubro
Ensino Fundamental/anos iniciais, a partir de 12 de novembro.

* Participaram desta cobertura Bibiana Dihl, Gabriel Jacobsen, Guilherme Justino, Iarema Soares, Kelly Matos, Noele Scur e Patrick Corrêa

** Com informações do Estadão Conteúdo




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